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SINAPI e SICRO não são tabelas prontas: como usar referências sem desligá-las da obra
Sistemas referenciais oferecem preços, composições, coeficientes e critérios que ajudam a estruturar orçamentos. Sua principal qualidade é criar uma base conhecida e passível de conferência.
Isso não significa que selecionar um código encerre o trabalho. A referência precisa ser lida à luz do projeto, da localidade, da data e das condições reais de execução.
O código é apenas a porta de entrada
Antes de adotar uma composição, é necessário compreender sua descrição, unidade, insumos, equipamentos, produtividade e atividades auxiliares.
Nomes parecidos podem esconder escopos diferentes. Uma composição pode incluir transporte interno, preparo, aplicação ou perdas que outra trata separadamente. Se o orçamento considera novamente uma atividade já contida na referência, ocorre duplicidade; se presume uma inclusão inexistente, surge omissão.
A composição traz premissas
Cada coeficiente representa uma condição de produção. Frente de serviço, equipe, equipamento, distância, método executivo e características do material influenciam a produtividade.
Quando a situação da obra difere da premissa referencial, pode ser necessário adaptar a composição ou elaborar composição própria. A adaptação deve ser registrada, preservando a origem dos elementos mantidos e justificando os que foram alterados.
Localidade e data não são detalhes cadastrais
Os preços variam no tempo e no espaço. Um orçamento precisa indicar a localidade e o período das referências adotadas, além da data das cotações complementares.
Misturar bases de períodos diferentes sem atualização produz uma planilha aparentemente detalhada, mas economicamente incoerente. O mesmo ocorre quando se utiliza preço de praça distinta sem examinar frete, disponibilidade e condições regionais.
Cotação não é liberdade para escolher qualquer valor
Quando o insumo ou serviço não está bem representado, a pesquisa de mercado pode complementar a base. Ela deve descrever o objeto cotado, as condições comerciais, a data, a unidade, os tributos, o frete e a comparabilidade das propostas.
Uma cotação só é útil quando os valores representam a mesma entrega. Comparar preços com escopos diferentes gera uma falsa precisão.
SINAPI e SICRO têm vocações e metodologias próprias
Os sistemas não devem ser tratados como listas intercambiáveis. Suas composições refletem metodologias e campos de aplicação próprios.
É possível que um orçamento precise consultar mais de uma referência, mas a escolha deve decorrer da adequação técnica, não da busca pelo menor ou maior preço. Quando houver combinação de fontes, os critérios precisam ser uniformizados e documentados.
A composição própria não rompe a referência
Criar composição própria não significa abandonar os sistemas referenciais. Ao contrário, eles podem fornecer insumos, salários, equipamentos e parâmetros para um serviço que não possua correspondência direta.
A composição própria deve mostrar:
- o serviço e sua unidade;
- os recursos necessários;
- os coeficientes e sua fundamentação;
- a origem dos preços;
- os itens incluídos e excluídos;
- a data e a localidade de referência.
Assim, a solução específica permanece auditável.
O código não é o serviço
SINAPI e SICRO são instrumentos de referência, não substitutos do projeto e da engenharia de custos. Usá-los bem exige interpretar as premissas, conferir o escopo e adaptar apenas quando a realidade da obra justificar.
O orçamento mais confiável não é aquele com maior quantidade de códigos. É aquele em que cada código representa, de fato, o serviço que será executado.